Medalha Ulysses Pernambucano é entregue à Cristina Albuquerque

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Com um discurso repleto de carinho, o Dr Antônio Peregrino fez a saudação à Dra Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque na outorga da Medalha Ulysses Pernambucano de Honra ao Mérito. A homenagem ocorreu na noite da última quinta-feira (10), durante a solenidade de abertura da XXXIV Jornada Pernambucana de Psiquiatria. A comenda é entregue aos psiquiatras que se destacaram no exercício e na defesa dos legítimos interesses da especialidade médica.

O Dr Antônio Peregrino, psiquiatra associado à Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, foi aluno e é um grande amigo da Dra Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque. Por isso, ele foi convidado pela diretoria da SPP para fazer o discurso que apresentou a homenageada com a Medalha Ulysses Pernambucano de Honra ao Mérito edição 2017.

Em sua fala, o médico enalteceu não só o currículo profissional da ex-professora, mas também seus dotes literários e humanísticos. “A base para homenagem a um médico, deverá sempre estar lastreada no mérito. A história e o valor de uma medalha – como a que hoje será entregue – precisa sempre estar associada a uma biografia constituída por obra grandiosa e que, às vezes, o merecedor nem se dá conta que tem”, disse no início de sua fala.

Confira, abaixo, o texto completo da saudação:

“Outorga da Medalha Ulysses Pernambucano 2017 à Profª Dra. Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque

Discurso de Apresentação

Meus queridos amigos psiquiatras.

Fui convidado pela Diretoria da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria para proferir algumas palavras nesta solenidade de abertura da XXXIV Jornada Pernambucana de Psiquiatria, especificamente na solenidade de outorga da Medalha Ulysses Pernambucano de 2017.

Nossas entidades médicas em geral e, particularmente, as entidades das diversas especialidades – como a nossa SPP – vêm distinguindo com medalhas ou diplomas, aqueles profissionais que se destacam em diversos campos de atuação médica com ética, competência, e valorização dos aspectos humanísticos em sua história de vida laboral.

Não são distinções de escolha democrática. E nem deve ser. A base para homenagem a um médico, deverá sempre estar lastreada no mérito. A história e o valor de uma medalha – como a que hoje será entregue – precisa sempre estar associada a uma biografia constituída por obra grandiosa e que, às vezes, o merecedor nem se dá conta que tem – que fez e que faz – na sua trajetória como médico. Em nosso caso, como psiquiatras.

É com esta compreensão que me cabe aqui a honra de apresentar em poucas linhas – como é possível?! – a médica-psiquiatra que hoje recebe a Medalha Ulysses Pernambucano, a comenda máxima da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria.

Falo da Professora, Doutora, Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque.

É verdade que estarei discorrendo sobre uma pessoa por quem sou literalmente encantado – aliás já declarei isso em nosso grupo de discussão na mídia social (o grupo PsiquiatriasPE).

Uma grande amiga, minha professora de tantas coisas na vida acadêmica, na prática clínica, uma companheira que ainda hoje tenho na resolução, em conjunto, de situações médico-psiquiátricas de difícil manejo; aquela que me ensinou a manusear medicamentos mais “delicados” como os inibidores da monoaminoxidase com tanta maestria e tranquilidade. Enfim, falo de uma pessoa por quem sou apaixonado.

Mas, independente, do caráter afetivo, que poderia ser imaginado como fator de contaminação desta minha fala (uma espécie de viés de seleção para os epidemiologistas) eu devo apresentar alguns – observem que são apenas alguns – aspectos da história profissional de Cristina Albuquerque na Psiquiatria, e que atestam, firmemente o quão merecedora deste prêmio ela é.

Maria Cristina é uma caruaruense que, já no seu 3o ano médico, foi contemplada com bolsa de estudos na Universidade de Harvard para seminário a respeito de “Vida e instituições nos Estados Unidos da América” – uma primeira demonstração de seu interesse pelos aspectos humanísticos e sociais da medicina.

Mas, além disso, no mesmo ano, realizava estudos de bioquímica e de fisiologia (particularmente de neurofisiologia), numa confirmação de seu igual interesse pela base orgânica e personalíssima do ser humano.

Ainda acadêmica, Cristina, foi classificada em primeiro lugar no concurso para internos da Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco, trabalhando no Manicômio Judiciário do Estado, onde recebeu o prêmio Carlo Erba pelo trabalho “Inteligência, Psicopatia e Criminalidade”.

No ano de sua formatura, 1966, novamente foi agraciada com o mesmo prêmio com a pesquisa “Contribuição ao estudo das influências culturais sobre a criminalidade em psicopatas”.

Cristina se iniciou docente tão logo foi graduada. Foi professora no Instituto de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco; ensinou no Curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia do Recife e, na Faculdade de Ciências Médicas (hoje pertencente à Universidade de Pernambuco), foi professora Assistente da Cadeira de Psiquiatria, sob a regência do Professor José Lucena.

Sua residência médica foi cursada em terras alienígenas: no St. Lawrence Community Mental Health Center e na Michigan State University, em Michigan, Estados Unidos, entre 1969 e 1971.

Tão logo retornou ao Brasil, em 1972, obteve o Título de Especialista em Psiquiatria pela Associação Médica Brasileira e Associação Brasileira de Psiquiatria.

Em 1978, Cristina foi aprovada em primeiro lugar em concurso público para Professor no Departamento de Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco, onde concentrou as suas atividades de magistério.

Também foi médica psiquiatra do Instituto Nacional da Previdência Social (hoje Instituto Nacional de Seguridade Social, INSS) onde ocupou o cargo de Supervisora e, posteriormente, Auditora de Psiquiatria.

Todos nós, psiquiatras pernambucanos, conhecemos a batalha que Cristina sempre travou na busca por excelência no atendimento àqueles que precisavam dos serviços psiquiátricos conveniados com a previdência.

Por seu brilhante trabalho de supervisão e auditoria chegou a ser ameaçada de morte ao apontar irregularidades em algumas clínicas e hospitais psiquiátricos com internamentos pagos com verba pública. Mas não só denunciava coisas erradas. Apontava os erros e apresentava soluções, simples até, porém sempre baseadas no melhor dos mundos para uma psiquiatria de qualidade, no acolhimento humano ao doente e com esteio no conhecimento científico.

No campo da pesquisa, publicou inúmeros artigos científicos com temas tais como: saúde mental de universitários pernambucanos; correlação entre número de internações, diagnósticos e intervalo de tempo entre as internações psiquiátricas; reformulação de comunidade terapêutica em clínica psiquiátrica; psicoterapia hospitalar; reinserção social do paciente esquizofrênico; perfil do psiquiatria pernambucano (em 1972); aspectos psicossomáticos da obesidade; compreensão do trabalho terapêutico dos alcoólicos anônimos; visão crítica do tratamento das esquizofrenias (assim, com um “esse a mais”, em artigo de 1980); benzodiazepínicos: hoje e amanhã (apresentado e publicado em simpósio internacional sobre benzodiazepínicos em 1980); conduta de médicos residentes diante de aspectos psiquiátricos dos seus pacientes; a formação do psiquiatra; álcool, alcoolismo e alcoologia; estudos sobre a psicogênese.

Enfim, uma produção científica que constitui um passeio entre o orgânico e o social, psicológico e filosófico. Entre o físico e o metafísico. Entre a bioquímica e a neurofisiologia e entre a vida e as instituições, estudadas no seu terceiro ano médico. Uma prova de coerência mantida ao longo do tempo.

Em um dos seus artigos (de 1981), Cristina aponta para o fato de que saímos da faculdade médicos. Depois, encantados com a psiquiatria (na residência e na prática clinica na pós-formatura imediata) tornamo-nos psiquiatras. Só depois, um tempo depois, vamo-nos tornando médicos-psiquiatras. Ou seja, isso ocorre, no momento em que conseguimos juntar e tentar entender ao mesmo tempo o “bio”, o “psico” e o social. Isso, ela já o fazia muito antes de se formar.

Com sua formação biopsicossocial (ou organodinâmica na conceituação do grande tratadista e psiquiatra francês Enri Ey, na década de 1950), Cristina manteve um consultório privado ativo e de grande procura pela eficiência e resolutividade, ao longo de 50 anos de prática.

Em 2017, reduziu suas atividades de clínica particular, porém mantém-se ativa em participar das coisas da psiquiatria como em jornadas, congressos, encontros. Sempre interessada em aprender e em ensinar.

Maria Cristina foi vice-presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Brasil; foi membro da Comissão de Residência Médica em Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria; e faz parte do Conselho Editorial da Revista ABP/APAL (Revista da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Associación Psiquiatrica de La America Latina).

Para além da Psiquiatria, Cristina Albuquerque é escritora. E escritora renomada. Tem uma obra literária reconhecida nacional e internacionalmente. Seus livros mesclam história e ficção com um especialíssimo estilo no qual a autora, personagens históricos reais e pessoas e situações imaginárias se misturam e levam o leitor a aprender sem o saber.

Ao ler seus livros, viramos também – como Cristina foi chamada pelo Professor Othon Bastos e, segundo ele, igualmente pelo Professor José Lucena – um “pai xambá… aquele que aprendeu sem se ensinar”.

Até o momento temos à disposição os títulos “O magnificat/Memórias de Isabel Cavalcanti” (de 1990); “Luz do Abismo” (1996); “Príncipe e Corsário” (2004); “Olhos Negros” (2009); “Matias” (2012); “O seminário” (2016); presentemente está concluindo novo romance (desta feita escrito em conjunto com o historiador português Hernani Maia) a ser lançado ainda em 2017.

Seus livros, Cristina, miscigenam você, seus personagens e seus leitores num fantástico, mirabolante, delicado e, o que é melhor, corretíssimo modo de compreender as coisas. Afinal de contas, como já dito, neles há um mistura do metafísico e da bioquímica, do orgânico, do real de todos nós.

Cistina é sócia – e já foi presidente – do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames) e da União Brasileira de Escritores (UBE).

Em 2005, foi agraciada com a Medalha Maciel Monteiro, o galardão máximo da Associação Médica de Pernambuco e hoje será agraciada com o maior galardão da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria: a medalha Ulysses Pernambucano.

Quando conversei com ela sobre o fato e disse que estaria aqui com a fala de introdução, Cristina lembrou, de imediato, o grande poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto quando foi comunicado que havia recebido a Medalha do Grande Mérito Guararapes, a maior comenda do Governo de Pernambuco.
Perguntou o poeta, de pronto:
– É de ouro?
Constrangido, o mensageiro respondeu-lhe que tal medalha era fundida em bronze.
Cabral insistiu:
– Tem de ouro?
Desesperado, o outro respondeu:
– Não! Ela é única. Fundida em bronze.
O poeta respirou aliviado:
– Neste caso, posso aceitar. Eu só uma pessoa cheia de defeitos. Um chato. Um cidadão de segunda classe. Mas meu trabalho é de ouro. Nele coloquei o melhor de mim mesmo. Tenho enorme respeito por ele. Para ele, eu só posso aceitar o ouro. Eu que o represento.

Há poucos dias, em rede social, Cristina foi parabenizada por colegas sobre a sobre a outorga da medalha pela SPP e respondeu exatamente como o poeta. Disse ela (palavras textuais): “eu sou uma pessoa chata, crítica, solitária, coronariana, hipertensa e meio arrogante. Mas meu trabalho é muito bom. É a ele que dedico o ouro do mérito Ulisses Pernambucano. Comovida e obrigada”.

Essas não são palavras que pudessem ser ditas por uma plebeia.
Esse nunca seria um texto que pudéssemos ouvir de uma princesa (dizer-se chata, crítica, meio arrogante, solitária?).
Essas são palavras que constituem uma verdade interior, encerram firmeza e força, poderiam se inserir na melodia de um hino muito pessoal, e só pode ser proferida, meus amigos, pelos lábios de uma rainha.

Uma rainha que Cristina bem sabe que é e nós, seus amigos, é que não sabemos como ela aprendeu a sê-lo. Da mesma maneira como o caso do mestre Xambá… aquele que aprendeu sem se ensinar.

E com isto dito, eu convido neste momento, com o meu – o nosso – melhor aplauso a Doutora Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque – para vir receber a Medalha Ulysses Pernambucano de 2017, a maior homenagem, Cristina, não só da Diretoria da SPP que nos representa, mas de todos os seus pares da grande sociedade pernambucana de psiquiatria.

Eu não sei nem de que material a medalha é feita, mas representa muito mais do que ouro; tanto para sua obra como para você como pessoa!

Parabéns, Cristina e que tudo isto se registre nos anais da XXXIV Jornada Pernambucana de Psiquiatria e em ata da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, em Recife, 10 de agosto de 2017.”

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